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A pressão estética e a maternidade: uma reflexão sobre o corpo pós-gestação
14 de Janeiro de 2025
A pressão estética e a maternidade: uma reflexão sobre o corpo pós-gestação
Por Laura Alonso (nutricionista e conselheira no CRN-3) e Rodrigo Sanches (pesquisador e consultor científico da NSE)
Você já se deparou com manchetes assim:
- “Corpão depois da gravidez”
- “Celebridade conta como perdeu os 16 quilos após a gravidez”
- “Atriz explica barriga chapada 2 meses após dar à luz”
Essas expressões revelam um padrão recorrente nas mídias e redes sociais: uma exaltação de celebridades que, pouco após o parto, exibem corpos magros, frequentemente acompanhados de "dicas" para que outras mulheres também possam alcançar esse ideal. Mas onde estão as discussões sobre a saúde física e mental da mulher no período da gestação e no puerpério?
Em sua maioria, o foco das notícias que circulam na mídia em geral e redes sociais reforça uma preocupação estética. Para além da maternidade, o corpo feminino é historicamente colocado sob narrativa que glorifica a magreza e a ausência de gordura. Na visão midiática, uma cintura fina e uma barriga chapada tornam-se sinônimos de feminilidade, sensualidade, beleza e sucesso, mesmo em um contexto tão transformador quanto a gravidez. E, para reforçar essa ideia, não faltam adjetivos: "barriga dos sonhos", "chapada", "negativa", "trincada", "seca", "sarada".
Até quando vamos reduzir a maternidade ao formato do corpo?
“O corpo de uma mulher, que gera, abriga, protege e dá à luz uma nova vida, nunca mais será o mesmo. E isso não deveria ser motivo de vergonha ou pressão. Pelo contrário, o processo da maternidade é uma jornada complexa e fantástica que, naturalmente, deixa marcas, algumas visíveis e outras não. A expectativa de que uma mulher ‘volte’ ao corpo de antes é cruel, especialmente quando a prioridade, durante esse período, deveria ser a saúde – tanto da mãe quanto do bebê”, afirma Laura Alonso, conselheira no CRN-3 e mãe de João Pedro (3 anos).
Não há dúvida de que o trabalho materno é exaustivo. Além de cuidar de um bebê recém-nascido, muitas mulheres não contam com uma rede de apoio eficaz, o que torna a tarefa de "equilibrar todos os pratinhos" uma missão quase impossível. Certamente, um desses "pratos" inevitavelmente cairá. Segundo Laura, “a pressão estética, quando combinada com a gestão física e emocional de ser mãe, impõe um fardo desproporcional e pode gerar consequências para a saúde. O corpo feminino, que é potência, que gera e dá à luz uma nova vida, nunca será o mesmo. E isso deveria ser motivo de celebração, não de vergonha ou cobrança”.
A relação entre corpo e feminilidade na mídia
Segundo Rodrigo Sanches, pesquisador e consultor científico da Nutrição Sem Estereótipos – NSE, uma iniciativa do CRN-3, o discurso da mídia raramente explora questões relacionadas à saúde da mulher durante a gestação e o pós-parto. Ao invés disso, o foco está sempre na aparência. O culto ao corpo magro, especialmente para as recém-mães, é um reflexo das expectativas de controle e domínio sobre o corpo feminino. A mídia contribui para a naturalização dessa opressão ao fortalecer a ideia de que o corpo feminino deve ser constantemente moldado e disciplinado para se adequar a padrões quase impossíveis de serem alcançados.
Esse comportamento da mídia está ligado ao conceito de “biopoder”, proposto por Michel Foucault: o corpo humano é controlado e regulado, tornando-se objeto de disciplina. A mulher pós-parto se encontra sob o olhar de uma sociedade que não celebra seu papel de geradora de vida, mas sim a velocidade com que ela consegue “recuperar” sua antiga forma e vida. Esse processo de vigilância midiática não apenas limita a expressão de feminilidade, mas também coloca a saúde e o bem-estar da mulher em risco.
No artigo “Grávida perfeita: efeitos do discurso midiático da boa forma voltado para gestantes”, escrito por Sanches e Sousa (Mídia e Cotidiano, v. 13, 2019), as mulheres devem ser vistas em sua completude, incluindo suas vulnerabilidades, transformações e conquistas como mães. Só assim poderemos romper com a lógica da estetização excessiva e avançar em direção a uma sociedade que valorize a saúde e o cuidado.
É urgente que novas narrativas sejam construídas. Em vez de focar no corpo e na estética, devemos valorizar a potência do corpo feminino em sua jornada materna, celebrando suas marcas e transformações. A maternidade é um momento de profunda mudança, que envolve força e resistência. Ignorar essa complexidade em prol de uma narrativa que valoriza apenas o retorno à magreza é desumano e desconsidera as reais necessidades das mães.
A mulher moderna já enfrenta desafios suficientes ao tentar conciliar suas diversas funções. Não podemos continuar a sobrecarregá-la com padrões de beleza que desconsideram sua saúde e bem-estar. Valorizar a maternidade em sua totalidade, sem reduzir as mulheres a seus corpos, é essencial para construir uma sociedade mais justa e acolhedora.